REVISTA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE VOLUME 54, n. 1 - 2020 (ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER)

REVISTA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE VOLUME 54, n. 1 - 2020 (ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER)

Código: 0486-641x(CO)

Marca: FEBRAPSI


Revista Brasileira de Psicanálise
Órgão Oficial da Federação Brasileira de Psicanálise
Volume 54, n. 1 - 2020
Número de páginas: 272
Categoria Principal: Revista Brasileira de Psicanálise


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Em 1920, Freud traz a público o livro Além do princípio do prazer, com novidades que, embora prenunciadas em textos anteriores, produzem mudan­ças em sua metapsicologia e também em sua clínica. O princípio do prazer, ponto central do funcionamento mental, cede espaço a outro princípio, a com­pulsão à repetição.

Se por meio do princípio do prazer Freud armou o arcabouço teórico capaz de explicar a formação dos sonhos, dos chistes, da organização dos sin­tomas e do estabelecimento da transferência, a descoberta ou a proposta de outro princípio desarranja, até certo ponto, essa estrutura, trazendo para a cena psicanalítica o traumático, a compulsão à repetição, a pulsão de morte como pulsão silenciosa a influenciar a teoria e a clínica.

Essas mudanças tiveram efeito nas propostas teóricas de seus discípulos, bem como no desenvolvimento da psicanálise ao longo do tempo, apesar das hesitações do texto freudiano.

Contribuições como as de Ferenczi - que tratou de forma expressiva do traumático e de mudanças na técnica psicanalítica - podem ser lidas a partir dessas considerações. Melanie Klein e seus seguidores tomaram a pulsão de morte como eixo fundamental para a teorização e a clínica.

Como pensar esse texto vigoroso de Freud, em nossos dias, após 100 anos de sua publicação? Qual é a sua importância? Como considerar a clínica do traumático, a transferência, os acontecimentos da realidade social após os 100 anos de Além do princípio do prazer? O que ele pode nos oferecer de subsídio para pensar a metapsicologia e a clínica diante dos desafios da atualidade? Como abordar os traumas de nossos dias?

Este número da RBP é dedicado à reflexão sobre esses temas. Os artigos aqui presentes contemplam da teoria à clínica.

Neste editorial, escolhemos por registrar a importância do texto freudiano na compreensão do que estamos vivendo, como brasileiros e psicanalistas, e enquanto uma revista científica comprometida com valores éticos e humanistas.

Cabe lembrar que a ideia de rever esse texto surgiu em nossas discussões editoriais antes mesmo da inusitada situação de uma pandemia se impor - portanto, antes do descaso ou da banalização do fato assumida pelo dirigente de nosso país, que insiste em negar ou diminuir o efeito dessa situação em nossa vida.

Exatamente a esse respeito nos parece muito oportuno pensar os desdo­bramentos do conceito de compulsão à repetição, tema central do texto freu­diano, para lançar algumas considerações ao observado em nossos dias. Ali, Freud lembra que a compulsão à repetição tem um aspecto mortífero, além de servir a uma possível simbolização do trauma.

Diante do trauma experimentado por todos nós pela pandemia de covid-19 - que já provocou a morte de mais de 44 mil brasileiros até o momento da escrita deste editorial - e do absoluto descaso ou recusa do atual governo em propor à população brasileira uma condução responsável do pro­blema, com perplexidade e profunda tristeza somos levados a nos indagar o motivo de tal violência. Que força é essa que repetidamente cega e desmente um acontecimento de tais proporções? O texto Além do princípio do prazer nos possibilita pensar no trauma psíquico, mas dá abertura para a concepção de trauma social.

Acreditamos que tamanha atrocidade, em vez de ser considerada um ato isolado, deveria ser analisada num contexto mais amplo, nas fronteiras do pensamento psicanalítico com outros saberes.

A análise feita por Fernando de Barros e Silva na revista Piauí nos parece um bom ponto de apoio para refletir sobre esse fenômeno. Segundo o autor, o país que lida com seus traumas por meio de negações e acomodações, sem nunca enfrentá-los de maneira direta, está fadado a conviver indefinidamente com seus sintomas. Aponta como trauma fundador do Brasil a escravidão, que, embora abolida em 1888, ainda não foi reparada, como podemos cons­tatar nos "sintomas dessa omissão crônica, dessa nossa maneira de driblar as exigências da civilização e perpetuar no presente a herança colonial, [que] estão aí, à vista de todos, nos morros, nas periferias, nas prisões, dentro de nossas casas" (2020, p. 29).

Nesse contexto, o autor também lembra a forma como tratamos os abusos da ditadura militar implantada em nosso país em 1964. Os crimes de morte e tortura perpetrados pelos algozes não foram devidamente reconhe­cidos e muito menos punidos. O autor segue esse raciocínio para explicar a ascensão do atual presidente. Para ele, Bolsonaro não chegou onde chegou apesar de seu discurso e de seus atos truculentos, mas exatamente por causa deles. De alguma forma, ele repete e perpetua o traumático de nosso passado não elaborado.

Dessa maneira, Bolsonaro faz uma conexão histórica entre os dois traumas vividos por nós, o militar de 1964 e o jurídico-parlamentar de 2016, quando homenageia Brilhante Ustra - conhecido torturador durante o regime militar - no voto a favor do impeachment da presidente Dilma, proferindo a nefasta frase: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff ". Nessa declaração, perversamente, ele nega a evi­dência da tortura, ao mesmo tempo que reafirma a violência.

Para finalizar, gostaríamos de lembrar que o projeto editorial desta gestão está em seu último ano. Contudo, já podemos observar que a revista tem contemplado temas de suma importância dentro da psicanálise e para nós, psicanalistas. Em 2019, abordamos os temas Ódio, Feminino, outras reflexões, Palavra e verdade, e Suicídio. Iniciamos 2020 com atraso, devido à pandemia, e será sobre esse tema que a RBP irá se debruçar no próximo número.

Desejamos que os leitores possam interagir com este número e desen­volver sua reflexão pessoal com base no estímulo que estamos lançando.

Boa leitura a todos!

Referências

Silva, F. B. (2020). Dentro do pesadelo: o governo Bolsonaro entra em sua fase mais calamitosa. Piauí, 164, 26-31.

 

Marina Massi

Editora

 

Leda Maria Codeço Barone

Editora Associada

Editorial
Além do princípio do prazer | Marina Massi e Leda Maria Codeço Barone............. 17


Diálogo
Psicanálise ontológica ou “O que você quer ser quando crescer?” | Thomas H. Ogden............. 23


Além do princípio do prazer
Além do princípio do prazer. Entre pulsões, vida e morte | Daniel Delouya............. 49
O que há além do princípio do prazer? | Denise Alencar............. 61
À flor da pele. Buscando representações para o que não tem sentido nem nunca terá | Cassandra Pereira França............. 69
Cântico negro. O uso clínico do conceito de pulsão de morte | Osvaldo Luís Barison............. 83
O fort-da como limite da representatividade e da temporalização da experiência | Marília Franco e Silva Velano e Leopoldo Fulgencio.......... 99


Interface
O testemunho e a denúncia. Sobre a transição do pai assassinado para o pai morto | Manola Vidal............. 115


Outras palavras
O umbigo da língua no Moisés de Freud | Alessandra Affortunati Martins Parente............. 131
Mais uma vez, por que a guerra? | Daniela Boianovsky............. 147
A falta que Bion faz. Considerações sobre as relações de objeto e a intersubjetividade nas teorias psicanalíticas | Luís Claudio Figueiredo.....157
De baratas a cupins. Literatura e figurabilidade | Keyla Carolina Perim Vale e Luana Silva Borges............. 170


Projetos e pesquisas
O estranho Inhotim. Psicanálise a céu aberto | Celso Halperin............. 189


História da psicanálise
Para situar a pulsão de morte. Ata esquecida da Sociedade Psicanalítica de Viena | Marta Raquel Colabone e Luiz Eduardo Prado............. 201
Velhas novidades de Ferenczi sobre o funcionamento dos sonhos. O sonho como Kur, o sonho como gyógyászat | Eugênio Canesin Dal Molin............. 211


Resenhas
Sartre ou o inconsciente como álibi / autor Roberto B. Graña | Resenhado por: Maria Célia Detoni............. 231
Psicanálise de casal e família. Desafios clínicos e ampliações teóricas / Orgs: Magdalena Ramos, Isabel Cristina Gomes, Maria Inês Assumpção Fernandes, Maria Lucia de Souza Campos Paiva, Ruth Blay Levisky e Silvia Brasiliano | Resenhado por: Cynara Cezar Kopittke............. 235
Manual da prática clínica em psicologia e psicopatologia / Autor: René Roussillon | Resenhado por: Ester Malque Litvin............. 241
A psicanálise no Brasil antes e depois de Lacan. Posições do psicanalista nessa história / Autor: Leandro dos Santos | Resenhado por: Daniel Hamer Roizman............. 247
Relações de objeto / Decio Gurfinkel | Resenhado por: Adriana Meyer Gradin, Camila Flaborea e Carla Braz Metzner............. 251
Primeiro Encontro Psicanalítico de Paraty. Diálogos com a cidade / Orgs: Tiago Julio Bonfada, Daniela Bormann, Carlos Eduardo Teixeira de Souza, Silvana Torres e Aguida Nozari | Resenhado por: Mariangela Relvas.............257



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